Política / Eleições 2026
Exclusivo para assinantes
Discursos do petista ao longo de todo o ano mostram prioridade do petista na política externa, enquanto senador aposta em menções à violência; economia é ponto comum, mas com abordagens distintas
0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x
00:00
00:00
candidatos — Foto: Andre Mello
Há dois projetos de país em debate neste momento, provados no vocabulário. Na disputa pela Presidência da República, um concorrente apostou nos sonhos de futuro melhor e no medo do brasileiro da interferência de uma potência estrangeira. O outro focou na violência que alarma a população e no cansaço de parte da sociedade após três mandados do rival. Ambas as conclusões partem de 850 mil palavras ditas ou escritas por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) desde o primeiro dia de 2026.
- 'Fica com esse voto, anula, põe onde você quiser': Aliado de Flávio, Marçal desdenha de eleitores de Renan Santos
- Felca é de esquerda ou de direita? Após novo vídeo gerar expectativa, veja o que influenciador já disse sobre o tema
O material baseia a série “Na cabeça dos candidatos”, que O GLOBO começa a publicar hoje. Ao longo do ano, foram reunidos todos os discursos oficiais dos dois políticos — como presidente, no caso de Lula, e no plenário do Senado, no caso de Flávio —, o conteúdo das principais entrevistas durante a campanha e as postagens da dupla nas redes sociais X e Instagram. São, ao todo, 2,5 mil registros entre 1º de janeiro e 16 de outubro, a sexta-feira da semana passada, que foram esmiuçados e categorizados com o auxílio de inteligência artificial.
Os três principais temas presentes no discurso de Lula no ano são Política Externa, Economia e Educação. Flávio, por sua vez, também tem a Economia entre os assuntos mais abordados, reforçando a centralidade desse mote na disputa — o bolsonarista ainda tratou regularmente de Política e Eleição e Segurança Pública.
Contudo, mesmo na seara econômica, a única a aparecer no topo da prioridade de ambos, há divergências evidentes. O petista foca em crescimento econômico e distribuição de renda, com retórica de apelo social, enquanto o parlamentar aposta em reduzir impostos e em desgastar o postulante à reeleição lembrando o endividamento das famílias.
— O Lula tenta mostrar que a economia brasileira está bem, que o desemprego e a inflação estão controlados, e o Flávio faz o contrário. Ele usou o preço dos supermercados para chegar direto na casa das pessoas — avalia o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da FGV-EAESP.
Os dados corroboram a percepção. Proporcionalmente, Lula falou quatro vezes mais a palavra “desemprego” do que o adversário. Já “supermercado” teve o dobro de uso por Flávio desde o início do ano.
A tática oposta ficou nítida no primeiro dia oficial de campanha, em 16 de agosto. Em comício em São Bernardo (SP), Lula comparou índices de seu governo com o de Jair Bolsonaro (PL), pai do rival: “A taxa de desemprego deles foi 8%, a nossa 5,4%. O aumento do emprego deles foi 6 milhões, o nosso foi 10 milhões”. No mesmo dia, Flávio publicou no Instagram: “Quem paga a conta do gasto descontrolado do governo é a dona de casa no caixa do supermercado”.
— São estratégias bem diferentes ao construir a narrativa. O Lula traz uma dimensão programática, buscando demonstrar capacidade de governar, de apresentar realizações. Já o Flávio concentra a comunicação no conflito, na identificação de adversários — opina a estrategista Nani Blanco, fundadora da Agência Nuvem.
Táticas opostas
Liderando o ranking do bolsonarista, o índice Política e Eleições traz sobretudo ataques diretos ao PT ou defesas da gestão do pai. Já Lula registra proporcionalmente metade da frequência no tema, em geral frisando apoios ou promessas anteriores cumpridas.
— Há um eleitorado antipetista muito grande. Então, uma das estratégias do Flávio é manter esse desgaste e mostrar que o que ele quer, antes de mais nada, é a descontinuidade do partido. Esse eleitorado reage: “Para tirar o PT, tô junto”. Não importa o que vem do outro lado — diz Teixeira.
Outra frente explorada por Flávio, a de Democracia e Instituição, reúne críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e uma suposta perseguição a Jair. Ele também falou mais do que Lula sobre Integridade Pública e Impostos. Por outro lado, só há um tema programático em que ele supera o petista em menções: Segurança Pública, justamente a maior preocupação atual da população, segundo pesquisas.
— É um assunto que desgasta o governo. O sentimento de insegurança da sociedade é grande, então, a população quer respostas imediatas. E as respostas fáceis que o Flávio defende tendem a ser mais assimiladas — analisa Teixeira.
Outras áreas da administração pública, porém, têm amplo predomínio de Lula. O presidente fala o dobro sobre Saúde, sete vezes mais de Educação e nove vezes mais de Meio Ambiente. O candidato à reeleição também tem dedicação maior a Direitos e Cidadania (onde entra, por exemplo, o combate à violência contra a mulher), Emprego e Renda, Cultura e até Agronegócio.
— Mas o eleitor não vota necessariamente em quem fala mais sobre problemas. Ele pode escolher quem mostra entender melhor aquilo que ele considera seu principal problema — pontua Nani Blanco.
No balanço geral do ano, nenhum assunto foi mais lembrado por Lula do que a Política Externa. A tática remete ao tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aliado da família Bolsonaro — a gestão petista chegou a investir no slogan “Brasil Soberano”.
Bem-sucedida em um primeiro momento, a tática impulsionou a aprovação do governo a seu pico recente. Figuras do entorno do petista, no entanto, acreditam que houve um excesso da pauta na campanha em si, mencionando a prevalência de temas de difícil entendimento sobre outros de mais fácil absorção — tal qual a violência escalada por Flávio — como uma das causas para a derrota no primeiro turno. Ainda assim, as citações diminuíram, mas não cessaram.
— Nós temos que enfrentar a bandeira americana, que enfrentar o presidente Trump, que enfrentar o presidente Milei (da Argentina), que enfrentar o Bolsonaro — discursou Lula na última sexta-feira em Ipatinga (MG).
Metodologia
Para a produção da base de dados, só foram levados em conta vídeos em que o próprio candidato está falando. O trabalho de catalogação com uso de IA teve supervisão humana de repórteres e editores.
Para a transcrição das entrevistas, foi utilizado um sistema que distingue interlocutores de uma conversa pela voz treinada para identificar apenas o candidato. Foi empregada ainda uma taxa de semelhança conservadora para minimizar eventual erro do modelo, bem como atribuições incorretas.
(Colaboraram Beatriz Leão*, Esther Gama*, João Marcelo Barreto*, Joziane Barbosa*, Kaio Magalhães*, Lívia Nani e Patrick Chaia*; *estagiários sob supervisão de Luã Marinatto)
Mais recente Próxima Escritório de Flávio recebeu R$ 4 milhões de banca de advogado semanas antes de Senado analisar seu nome para órgão do MP
- Alexandre de Moraes
- André Mendonça
- Edson Fachin
- STF


