Demétrio Vecchioli

Thiago Milhim é militante do Podemos e saiu candidato pelo PL, com sobrenome que não é dele, para ser puxado por Nikolas Ferreira

Demétrio Vecchioli

07/10/2026 15:13

Reprodução

A enorme votação de Nikolas Ferreira vai levar à Câmara dos Deputados, pelo PL de Minas Gerais, um ex-secretário do governo Lula (PT) que concorreu com um sobrenome fake, é dirigente do Podemos e tem atuação em São Paulo, onde foi secretário municipal e estadual de Esporte.

Braço direito de Renata Abreu, presidente nacional do Podemos, Thiago Martins Milhim concorreu como “Thiago Ganem”, ainda que não tenha qualquer laço familiar com os Ganem, e se apresentou ao eleitor mineiro por páginas nas redes sociais criadas só recentemente.

Nesses perfis, amplamente impulsionados na campanha, Thiago tem sobrenome Ganem, mora em Minas Gerais, faz parte do PL e é militante da causa animal. Ele também tem perfis específicos para se apresentar como cristão, como defensor dos autistas, dos pacientes oncológicos e dos fibromiálgicos.

Mas há também um outro perfil público, do Thiago Milhim real, em que ele posta fotos com a filha recém-nascida em São Paulo (onde a esposa tem consultório) e mostra que seguiu militando no Podemos, inclusive após se filiar ao PL. Neste perfil da vida real não há fotos com animais.

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Até recentemente secretário nacional do Podemos, partido dos “Ganem” originais, Thiago não pediu votos para os candidatos majoritários do PL – entre eles Flávio Bolsonaro -, e tirou proveito da expressiva votação recebida por Nikolas Ferreira para chegar à Câmara.
Com 42,7 mil votos, pegou a 15ª cadeira do PL em Minas, para onde diz ter se mudado em junho de 2025. Pelo Podemos, ele não teria sido eleito, porque o partido não superou o coeficiente eleitoral para fazer deputado federal em Minas Gerais. Questionado pela coluna, ele não garantiu seguir no partido que o elegeu (leia a íntegra das respostas dele no final do texto).
De acordo com o site mineiro O Fator, a candidatura de Thiago pelo PL foi costurada entre Renata Abreu e Valdemar da Costa Neto, em troca do apoio do Podemos à candidatura de Sergio Moro (PL) no Paraná, superando a mágoa deixada pela desistência do ex-juiz de concorrer à Presidência pelo Podemos em 2022. Thiago era o coordenador daquela campanha frustrada.
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Perfis de Thiago Milhim e Thiago Ganem, que são a mesma pessoa
Arte Metrópoles
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Quem é Thiago Milhim
Ex-assessor de José de Abreu, fundador do Podemos e pai da deputada federal Renata Abreu, Milhim foi subprefeito da Casa Verde, reduto eleitoral da família Abreu e era presidente nacional do partido quando foi nomeado secretário municipal de Esporte no início da gestão Bruno Covas (PSDB), em 2021. Ficou um ano no cargo e saiu da secretaria, já na gestão Ricardo Nunes (MDB), para coordenar o projeto presidencial de Moro.
Quando o ex-juiz saiu do partido, Milhim assumiu a secretaria de Esporte no governo do estado de São Paulo, na gestão Rodrigo Garcia (PSDB), ainda em 2022. No ano seguinte, novamente por indicação do Podemos, se tornou o responsável pelo pagamento de emendas no Ministério do Esporte da gestão Lula (PT). Acabou ficando pouco tempo no cargo quando o grupo de André Fufuca (PP) reivindicou controlar o setor mais politicamente atrativo da pasta.
De volta a São Paulo, foi nomeado na Alesp e passou a se dedicar a eleger vereador o marido de Renata, Gabriel Abreu. Conseguiu a partir da causa animal: o Podemos indicou o deputado federal e influenciador digital Felipe Becari, então no União, para ser secretário municipal de Esporte. Diariamente, Becari realizava “resgates” de animais acompanhado de seu fiel escudeiro, Gabriel, sempre com ampla cobertura pelas redes sociais.
Quem é Thiago Ganem
O próprio Podemos, porém, também tem um ativista da causa animal popular para chamar de seu: o deputado estadual Bruno Ganem, que elegeu quatro falsos “Ganem” vereadores em 2024, um deles depois condenado à prisão por fraude de domicílio eleitoral em Belo Horizonte.
Em busca de replicar o modelo, o partido lançou outros 10 candidatos usando o nome de urna “Ganem” nas eleições deste ano e a mesma identidade visual, mas desta vez só parte deles pelo Podemos.
“Thiago Ganem” nasceu, nas redes sociais, em abril de 2025, com a mesma estratégia que deu certo com Gabriel Abreu: fotos de cachorros desnutridos, discurso em defesa da causa animal, vídeos de “resgate” de animais de rua com trilha sonora de ação e imagem colada à de Becari.
Conhecido como Thiago Milhim – usou esse nome para presidir um partido e ser secretário de três governos -, o político não poderia concorrer como “Thiago Ganem”, uma vez que a legislação eleitoral veda a adoção de nome de urna capaz de estabelecer dúvida quanto à identidade do candidato. Mas o Ministério Público Eleitoral (MPE) perdeu o prazo para apresentar a impugnação e o pedido feito com atraso acabou rejeitado pela Justiça Eleitoral por issso.
Quem são os Ganem
Graças aos votos do puxador Nikolas Ferreira, Thiago conseguiu o que nenhum outro dos “Ganem” conseguiu: um mandato. Dos 11 candidatos, 10 saíram derrotados das urnas, entre eles o original, Bruno Ganem, que tentou se reeleger deputado federal por São Paulo, pelo Podemos, e teve 64 mil votos.
Talvez projetando uma votação muito maior, Bruno lançou tanto a mãe, Clarice, quanto a esposa, Amanda, como candidatas a deputadas estaduais em São Paulo. Mas nenhuma das duas se elegeu – a sogra teve 38 mil votos e, a nora, 18 mil. A soma dos votos não elegeria nenhuma das duas, mas ao menos valeria a segunda suplência do partido.
No Rio, Flávio “Ganem” (outro militante do Podemos paulista) e Duda “Ganem” concorreram pelo União e tiveram, respectivamente, 28 mil e 17 mil votos para a Câmara e para a Alerj. Na Bahia o partido escolhido para as candidaturas de Jair “Ganem” e Willian “Ganem” foi o PDT, mas nenhum deles chegou a 3 mil votos. Em Santa Catarina, aí sim pelo Podemos, Ricardo “Ganem” e Vinicius “Ganem” ficaram abaixo dos 5 mil votos.
A estratégia já havia sido adotada, com maior sucesso, em 2024, quando quatro falsos Ganem se elegeram vereadores, em São Paulo, Sorocaba, Campinas e Belo Horizonte. Em BH, “Lucas Ganem” (na verdade Lucas do Carmo Navarro) foi cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por fraude no domicílio eleitoral e condenado a um ano e seis meses de prisão.
Durante o processo criminal, o verdadeiro morador do imóvel onde Lucas dizia morar e investigadores confirmaram a irregularidade. Lucas “Ganem” também admitiu ter informado o endereço à Justiça, mas sua defesa argumentou que o conceito de domicílio eleitoral é mais amplo e não exige residência física no local. Ele foi cabo eleitoral de Thiago Milhim, vulgo Thiago Ganem.
Perguntas e respostas para Thiago Milhim/Thiago Ganem:
Por que a filiação ao PL se não fez campanha pelos candidatos do PL?
Por entender ser o melhor caminho para o Brasil nestas eleições, me filiei ao PL em março de 2026. Na campanha, apresentei propostas em defesa das causas que fazem parte da minha trajetória. Fiz campanha pelo PL e participei de diversas agendas com lideranças do partido e construções políticas com outros candidatos.
Onde mora em Minas Gerais? Para ser candidato por Minas Gerais, deixou para trás a família que mora em São Paulo, com filha recém-nascida?
Sou neto de mineiros, e hoje Moro em Belo Horizonte, no bairro Castelo, com minha esposa e nosso filho. Todos nós, graças a Deus, vivemos juntos e tivemos a felicidade de participar de atos de campanha unidos, com meu filho no colo quando era possível.
Importante destacar inclusive a alegria que tive ao receber a Medalha da Inconfidência Mineira, maior honraria do estado, em abril de 2025, em reconhecimento à minha contribuição ao serviço público. Na sequência, em junho de 2025, mudei meu domicílio eleitoral ao decidir seguir minhas atividades políticas e profissionais no estado.
Por que existem dois Thiagos nas redes sociais? Um Ganem e um Milhim?
Para que possa ter meu perfil de atividades eminentemente privadas, direcionado à família e pessoas do convívio mais íntimo. E um perfil público, onde compartilho meu trabalho, minhas ações e os assuntos da minha atuação pública, relacionado com o grupo político Ganem que teve candidaturas com propósitos comuns em diferentes estados e partidos.
O eleitor que te elegeu pelo PL pode ter a certeza de que você ficará até o final do mandato no partido e acompanhará as determinações da bancada?
Fui eleito pelo PL e é pelo PL que inicio essa nova jornada do nosso mandato. A prioridade é trabalhar por Minas Gerais e cumprir os compromissos que assumi com os mineiros.


