Chef, à frente do reality 'Infiltrado na Cozinha', fala sobre a relação cada vez mais complicada com a comida, o excesso de preocupação com nutrição e a transformação da gastronomia em espetáculo

7 out 2026 - 06h10

(atualizado às 08h01)

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- Por: Matheus Mans

Resumo

Na segunda temporada de Infiltrado na Cozinha, no GNT, Paola Carosella celebra uma fase mais leve e bem-humorada na TV, sem a rigidez de julgar técnicas. A chef critica a relação atual com a gastronomia, hoje polarizada entre obsessões nutricionais e espetacularização nas redes, o que ofuscou o simples prazer de comer e cozinhar. Aos 53 anos e cheia de projetos, ela equilibra a visibilidade das telas com uma rotina pessoal discreta e focada na família e em seus restaurantes.

Paola Carosella não quer mais ter certeza de nada na cozinha — pelo menos quando está diante das câmeras. Depois de uma temporada de Infiltrado na Cozinha, reality do GNT em que participantes tentam descobrir quem entre os cozinheiros é o impostor, a chef chegou à segunda temporada com uma constatação curiosa: técnica, confiança e aparência não são suficientes para revelar quem está mentindo.

"Aprendi que adivinhar quem é o infiltrado é muito mais difícil do que parece. Tem infiltrado que cozinha maravilhosamente bem, de dar inveja em muito profissional, e tem cozinheiro profissional que erra, trava, tem um dia ruim na frente da câmera", conta. "Então esse olhar de 'é só prestar atenção na técnica que eu descubro' não funciona".

O elenco de 'Infiltrado na Cozinha': Luana Zucoloto, Paola e Fabão

Foto: Adalberto de Melo Pygmeu/Divulgação / Estadão

A descoberta diz tanto sobre o programa quanto sobre o momento de Paola na televisão. Aos 53 anos, depois de 36 de cozinha e uma década diante das câmeras, ela diz que continua procurando situações em que possa fazer algo diferente. E encontrou no Infiltrado um ingrediente que hoje a interessa particularmente: o humor.

"Eu adoro fazer TV e gosto de aprender sempre, de me colocar em lugares diferentes. Sinto que ainda tem espaço pra descobrir — sou curiosa, inquieta, gosto de desafio", afirma ao Paladar. "Hoje uma coisa que me seduz muito é o humor. Eu amo humor, e é exatamente isso que o Infiltrado na Cozinha me dá: um lugar onde eu posso usar esse recurso, sem a rigidez nem a pressão de estar ali julgando pessoas ou técnicas".

A segunda temporada estreou em 16 de setembro no GNT e no Globoplay, com oito episódios. A estrutura continua baseada no jogo de suspeitas: cozinheiros reais e infiltrados disputam provas culinárias, enquanto os jurados Fabão e Luana Zucoloto tentam identificar quem está escondendo sua verdadeira habilidade. Nesta nova leva, a produção acrescentou a sala de interrogatório e as chamadas dicas da Esfinge, que ajudam a levar a investigação para outro nível.

Paola, porém, faz questão de delimitar seu território. "Essas ferramentas são deles — quem interroga e investiga são os jurados, eu sigo no meu papel de apresentadora, conduzindo o jogo", diz. Para ela, o mais interessante é observar o que acontece quando Fabão e Luana começam a testar suas teorias. "Dá pra ver os dois indo mais fundo, testando teorias, brincando com os participantes".

A chef Paola Carosella

Foto: Leo Martins/Estadão / Estadão
Ela fica no meio desse jogo, provocando, criando o clima e tentando descobrir o infiltrado junto com quem está em casa. É uma posição diferente daquela que ocupou em outros programas, quando sua função estava mais diretamente ligada a avaliar comida, técnica ou desempenho.
"Gosto de gente, gosto de equipe, gosto de criar junto", afirma. Foi também isso que a convenceu a aceitar o projeto. Paola diz que não quer se repetir e que procura trabalhos capazes de colocá-la em lugares novos. "Tem que ser algo que me desafie, que me coloque num lugar novo. Não gosto de ficar me repetindo. Tem que ter uma equipe séria e entusiasta por trás".
No caso de Infiltrado, havia ainda uma condição de que ela gosta particularmente: não ser a dona absoluta da cena. "Outra coisa fundamental pra mim foi dividir o palco com Luana e Fabão. Eu amo que sejam eles as estrelas", afirma.
O que a televisão não está mostrando
A conversa sobre o reality, no entanto, acaba levando Paola para um assunto maior: o modo como a televisão e as redes sociais passaram a falar de comida. Ela não acredita que haja um excesso de programas gastronômicos. Ao contrário. "Acho que tudo é possível. É como perguntar se ainda tem espaço pra um restaurante novo ou pra um filme novo", diz. Para ela, a cozinha continua sendo um campo fértil justamente porque a comida atravessa praticamente todos os aspectos da vida.
O problema, diz, está menos na quantidade de conteúdo e mais naquilo que ficou de fora dele. "Falamos de proteína, de carboidrato, de caneta emagrecedora, de bastidor de restaurante, mas falamos cada vez menos da importância da comida e do momento da refeição e o quanto isso impacta na nossa saúde não só física, como mental, como nos impacta como sociedade", afirma.
Na visão da chef, a comida acabou presa entre dois extremos: a preocupação nutricional e a gastronomia transformada em espetáculo. "Parece que deixamos de lado o prazer de comer", diz. "Ou não existe, ou é tabela nutricional ou é experiência gourmet com seu obrigatório registro, crítica e avaliação nas redes. Estamos num momento quase distópico".
É justamente por isso que ela vê beleza em Infiltrado na Cozinha. O programa não depende necessariamente da ideia de que cozinhar é uma demonstração de virtuosismo. Pelo contrário: parte da premissa de que alguém aparentemente comum pode preparar um prato muito bom e que um profissional também pode falhar. "Ele mostra que qualquer pessoa pode cozinhar muito bem, quais as histórias que temos com a comida, como é possível comer pratos deliciosos sem ser obras de arte da técnica e como se divertir cozinhando. Disso, se fala cada vez menos", contextualiza.
Para Paola, há ainda uma discussão muito maior que a televisão poderia enfrentar. "Com certeza existe espaço para debates bem maiores em torno de tudo que impacta a comida", afirma. "A gente não fala de como a comida chega até a nossa mesa, tem um universo de coisas relacionadas à comida que ninguém mais discute. Estamos olhando pro micro porque o macro não parece mais possível".
Uma vida fora do barulho
Na televisão, Paola ocupa um espaço cada vez mais reconhecível. Fora dela, a rotina é bem menos exposta. A chef se define como "muito discreta, muito reservada e insuportavelmente organizada" e diz ter criado uma rotina que consegue cumprir com qualidade.
As gravações de uma temporada de Infiltrado ocupam apenas 15 dias. O restante do ano é dividido entre o restaurante, a família e uma agenda bastante silenciosa. De segunda a sexta, o trabalho toma praticamente o dia inteiro; à noite, ela volta para casa e janta em família. Não costuma sair durante a semana e dorme cedo. Nos fins de semana, lê, estuda, planeja a semana e, quando consegue, visita uma exposição ou vai ao cinema.
É uma rotina quase oposta à exposição permanente das redes sociais e da televisão e talvez seja justamente isso que permita que ela continue interessada em aparecer. Paola não parece querer transformar toda a vida em conteúdo.
Aos 53 anos, também não demonstra interesse em diminuir o ritmo. "Tenho 36 anos de cozinha e 10 de TV, tenho 53 anos e nem sinto essa idade. Parece que o tempo que passou só me deu mais alimento para ter ainda mais vontade de fazer coisas", conga.
Ela se define como uma "empreendedora nata" e diz estar cheia de ideias. Quando perguntada sobre o que ainda gostaria de fazer, não aponta um projeto específico. "Tudo que me dá vontade, eu quero fazer", afirma. "Novos programas, novas formas de trabalhar, outros projetos. Estou sempre cozinhando alguma coisa".
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