A controvérsia religiosa que envolveu a campanha eleitoral na última semana levou bispos e padres católicos a se manifestarem, direta ou indiretamente, sobre a estratégia de aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que buscou associar a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a um suposto plano para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Citada diretamente pelo filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) viu o episódio ampliar um desenho interno que precedia o caso: antes mesmo da polêmica estourar, bispos já vinham viralizado nas redes sociais com vídeos que citavam desde a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) à defesa da soberania.

- 'Trazer o empreendedorismo': Flávio Bolsonaro recebe apoio de Pablo Marçal e integra ex-coach à equipe da campanha

- Eleições: Cleitinho faz dobradinha com Tarcísio de Freitas na reta final da campanha e se mantém afastado da disputa nacional

No último domingo, durante ato em Goiânia, Flávio afirmou que “gente dentro” da CNBB seria responsável por ajudar o PT a “levantar essa fake news”. A declaração foi seguida de uma nota da confederação, na qual o grupo negou ter produzido, autorizado ou participado da disseminação “de informações falsas”. Sem citar diretamente o senador, a entidade disse ainda que atribuir a ela “disseminação de desinformação” não “contribui para a serenidade e a responsabilidade” do processo eleitoral.

Nas redes, o bispo Dom Vicente Ferreira, da Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA), adotou tom mais duro já nesta segunda-feira:

“O pai disse que a CNBB é a parte podre da Igreja Católica (...) Agora, o filho declara que ajudamos a divulgar Fake News. Valei-nos, Mãe Aparecida! Nossa rainha e padroeira”, disse o religioso no X. Antes da controvérsia, ele já havia feito menção à pauta da soberania, um dos motes da campanha petista. “Quem tem que governar o Brasil são os brasileiros. A democracia não pode ser ameaçada por autoritarismo golpista (...) Votemos de modo decente”, escreveu.

Também nesta segunda-feira, o bispo dom Roberto Francisco Ferreira Paz, de Campos dos Goytacazes (RJ), disse ao jornal Folha de S. Paulo que Flávio Bolsonaro precisava esclarecer a declaração de que, se eleito, irá "decretar que o Brasil é do senhor Jesus Cristo". Integrante da Pastoral da Saúde e da Comissão para o Laicato da CNBB, Ferreira Paz acrescentou que a decisão é "perigosa", pois levanta dúvidas sobre o que pode significar para a liberdade religiosa no país.

Na véspera, dom Lauro Versiani Barbosa, da Diocese de Colatina (ES), publicou um vídeo no qual, ao lado de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, estimulava católicos a estarem atentos “à proposta de sociedade” dos candidatos. Ele cita “atentados” contra a cultura brasileira e o “respeito às nossas tradições”:

— Mais do que escolher o candidato A, B ou C ou partido A, B ou C, nós devemos estar atentos à proposta de sociedade que está sendo apresentada: uma sociedade aberta ao futuro, uma sociedade que promove a fraternidade, a solidariedade, ou uma sociedade marcada pela intolerância, pelos grupos fechados e pelos atentados contra a própria cultura do povo brasileiro, o respeito às nossas tradições e o respeito à democracia.

Manifestações em sentido contrário também foram feitas. Nas redes, o bispo Dom Adair Guimarães, da Dioceses de Formosa (GO), pediu a intercessão de Nossa Senhora Aparecida “para que continue nos livrando da peste, da fome, da guerra e do comunismo":

"Toda essa confusão com Nossa Senhora Aparecida no Brasil é um presságio de que quem usa de Nossa Senhora Aparecida para proveito, seja de qual natureza for, não vai sair bem”, diz o bispo na gravação, também divulgada nesta segunda-feira. O vídeo foi republicado por Flávio Bolsonaro.

Por meio das redes sociais e sem citar diretamente o caso, dom Devair, bispo de Piracicaba, publicou um vídeo no qual afirma que notícias falsas são usadas para ameaçar “nossa devoção”. “Como é possível criar notícias falsas a partir de coisas tão simples, da simples devoção do nosso povo? Será que essa é a única fake news que espalham em nosso meio?", afirma o bispo na gravação, compartilhada no sábado e republicada pelo senador bolsonarista Magno Malta (PL-ES).

'Diabo não põe a pata'

De perfis mais conservadores, os dois bispos já haviam se manifestado publicamente com críticas a Lula. As declarações ocorreram após o petista afirmar que a Igreja Católica cresce menos que a evangélica por manter o celibato dos padres. Em um vídeo nas redes sociais, dom Adair chamou Lula de um "apedeuta" que "quer se meter em tudo".

No dia 19 de setembro, dom Devair queixou-se durante uma homilia de "políticos que tentam dizer o que a Igreja precisa fazer". Ele também pediu que eleitores se lembrem do fato ao "apertarem os números na urna".

— Tentam falar até do celibato dos padres quando deviam cuidar do país. E estão cuidando muito mal. Nós precisamos reafirmar sempre que na Igreja de Cristo o diabo não põe a sua pata (...) Não escolham aqueles que querem acabar com a nossa liberdade — disse o religioso.

Corrupção e soberania

O Sete de Setembro também rendeu manifestações de bispos. Em uma missa no dia 6, dom Adair afirmou que o país não vive "uma democracia plena" e citou a existência de "presos políticos", além de pedir à Nossa Senhora que "interceda" pelo ministro do STF André Mendonça:

— Que Nossa Senhora proteja nossa juventude, nossa pátria em frangalhos e doente. Interceda pelo nosso ministro André Mendonça, para que ajude a colocar a limpo o marasmo da corrupção que estraga a nossa pátria, a ditadura, ao cerceamento às liberdades com presos políticos e expatriados que revelam que a nossa pátria não possui uma democracia plena.

Já na missa de Sete de setembro celebrada em Aparecida, o arcebispo emérito Dom Orlando Brandes falou em soberania após pedir a Nossa Senhora que "nesse ano eleitoral elegamos aquelas pessoas (...) pensando no bem comum":

— Cá entre nós, festa da independência. Vamos defender a nossa soberania. Nenhum poder de fora, seja quem for, deve mandar aqui. Aqui é nossa casa, nossa pátria. Aqui é o chão abençoado que Deus nos deu e faz parte da nossa identidade.

A expressão “soberania” voltou a aparecer no dia 19 de setembro em um vídeo da Regional Norte 1 da CNBB, que reúne bispos do Amazonas e Roraima. A gravação intercala falas de diferentes religiosos dos dois estados nas quais predominam pedidos para votos em candidatos que apoiem a preservação da Amazônia e defendam "os territórios dos povos indígenas, ribeirinhos e povos tradicionais". A fala sobre a soberania coube ao bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus, Dom Frei Samuel Ferreira:

— É importante a soberania do Brasil, a soberania da nossa Amazônia, a soberania de nossas riquezas e bens. A democracia, portanto, é um bem precioso a ser cuidado.

Tanto o vídeo de dom Orlando Brandes quanto o dos bispos do Amazonas e Roraima viralizaram nas redes sociais, impulsionados, principalmente, por simpatizantes do petista.

Até o momento, o tom mais incisivo apareceu na carta "Não deixemos cair a profecia", assinada coletivamente pelo grupo anônimo "Bispos do Diálogo pelo Reino" e divulgada em agosto. No texto, que fala em "grave crise social e ecológica" e violências contra "mulheres, povos originários, afrodescendentes, a população LGBTQIAPN+, entre outros", os religiosos criticam o "conservadorismo autoritário" dos que atacam aqueles que "testemunham a fé no meio dos pobres, na defesa da democracia e das pautas ambientais".

Na carta, os religiosos, que se dizem em "sintonia" com o posicionamento oficial da CNBB, frisam não ter partido, mas se posicionam "do lado dos pobres", de quem "defende a democracia e soberania do país", contra "qualquer postura fascista" e a "avalanche de mentiras e disseminação do ódio pelas avenidas digitais". O texto foi republicado também no site da CNBB Regional Sul 3, que corresponde ao estado do Rio Grande do Sul.

— Em 2022 aconteceu algo similar. No final do 2º turno, tivemos uma mobilização de parte dos bispos. Essas coisas nunca são tão organizadas assim, como se a CNBB tivesse se mobilizado. Mas algumas lideranças que têm compromisso com direitos humanos e algumas conexão com a Teologia da Libertação percebem o contexto e se articulam — explica o sociólogo e pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (Iser) Clemir Fernandes.

Segundo ele, a movimentação reúne a parcela do segmento progressista da Igreja, historicamente mais vinculado à esquerda e às pautas envolvendo direitos humanos e questões ambientais. O pesquisador destaca que muitos desses religiosos estão se aproximando da aposentadoria, fator que pode contribuir para as mobilizações na medida que manifesta um receio em relação ao "futuro da Igreja":

— Há novos bispos que já têm esses compromissos. Mas, em comparação com o período anterior, da formação desses bispos que estão no final de suas trajetórias, há mais conservadores, legado de João Paulo II.

O pesquisador avalia ainda que os vínculos de Flávio Bolsonaro com o universo evangélico também contribuem para que mesmo setores moderados do Clero participem da mobilização, embora em menor grau:

— O crescimento evangélico está mais atrelado a uma das candidaturas. Bispos que estejam mais ao centro, mas sejam preocupados com o crescimento evangélico, também se articulam.

O que diz a CNBB?

No dia 18 de junho, a CNBB divulgou uma "mensagem ao povo brasileiro por ocasião das eleições de 2026" na qual reafirmava não indicar candidatos nem partidos. Apesar do tom de neutralidade, a conferência informou que não poderia silenciar "diante da escandalosa desigualdade social, da corrupção, da compra de votos, da utilização indevida dos recursos públicos e da disseminação deliberada de mentiras (fake news)".

A mensagem pedia que os eleitores não se abstivessem e pedia que olhassem "não apenas para promessas de campanha, mas principalmente, para a história de vida dos candidatos e as consequências dos compromissos assumidos". A CNBB também afirmava que a democracia requer "respeito às instituições da República, especialmente à Constituição Federal, ao Estado Democrático de Direito e à interdependência dos Poderes".

Mais recente Próxima Saiba quem está na frente nas pesquisas para senador em Pernambuco