A Fábrica de Tapetes de Lisboa foi uma fábrica portuguesa de tapetes, anexada em 1771 à Real Fábrica das Sedas, em Lisboa. A instituição integrou o conjunto de oficinas e fábricas anexas ao complexo manufatureiro das Sedas, estabelecido no Rato, e esteve ligada ao mestre João Gonçalves, com quem a administração da Real Fábrica das Sedas celebrou contrato em 1 de julho de 1771. A sua história documentada é breve, mas enquadra-se na política de concentração, coordenação e desenvolvimento de manufaturas especializadas promovida pela Real Fábrica das Sedas na segunda metade do século XVIII. Em 1778, João Gonçalves assumiu a administração da fábrica por conta própria, ficando autorizado a usar gratuitamente o edifício da Junta Administrativa das Fábricas e obrigado a pagar, em cinco anuidades, o valor da mobília e dos materiais que lhe foram trespassados. Segundo a tradição historiográfica recolhida por Francisco de Sousa Viterbo, a fábrica acabou por declinar e extinguiu-se em data não determinada.

História

Antecedentes e enquadramento A Fábrica de Tapetes de Lisboa dependia da Real Fábrica das Sedas, a cuja administração foi anexada por contrato celebrado com o mestre João Gonçalves em 1 de julho de 1771. Esta dependência insere a fábrica no conjunto de oficinas anexas à Real Fábrica das Sedas, que, a partir do período pombalino, deixou de funcionar apenas como uma unidade fabril dedicada à seda para se converter num centro coordenador de múltiplas oficinas, manufaturas e estabelecimentos técnicos. A própria Real Fábrica das Sedas passou, ao longo da segunda metade do século XVIII, a agregar oficinas de natureza diversa, entre as quais se contavam as de louça, pentes de marfim, relojoaria, serralharia, botões, caixas de cartão e verniz, fundição de metais, chapéus, limas, cutelaria, meias de lã e tapeçaria. A Fábrica de Tapetes de Lisboa integrou esse movimento de diversificação e centralização manufatureira, no qual a administração das Sedas funcionava como estrutura de tutela, financiamento, coordenação e, por vezes, formação técnica. A documentação e a bibliografia conhecidas são escassas, mas a fábrica é mencionada por Francisco de Sousa Viterbo entre os estabelecimentos anexos ou relacionados com a Real Fábrica das Sedas. A referência à sua anexação em 1771 mostra que a manufatura de tapetes era considerada suficientemente relevante para ser incorporada na rede de fábricas protegidas e reguladas pela administração régia das manufaturas.

Anexação à Real Fábrica das Sedas Em 1 de julho de 1771, foi feito um ajuste com o mestre João Gonçalves para a anexação da fábrica dos tapetes de Lisboa à Real Fábrica das Sedas. O contrato colocou a fábrica sob a dependência da instituição-mãe, seguindo o modelo de incorporação de oficinas especializadas que caracterizou a expansão do complexo fabril do Rato. João Gonçalves surge, nas fontes conhecidas, como mestre tapeceiro e principal figura associada à fábrica. O eViterbo regista-o entre as pessoas relacionadas com a Real Fábrica das Sedas e com a Fábrica de Tapetes de Lisboa, referindo que a sua carreira conhecida se encontra documentada sobretudo pelos contratos de 1771 e 1778. A identificação de Gonçalves como mestre sugere uma organização oficinal assente na competência técnica do responsável direto pela produção, ao mesmo tempo integrada numa administração de maior dimensão. A anexação da Fábrica de Tapetes ao sistema da Real Fábrica das Sedas deve ser entendida no quadro da política manufatureira pombalina e pós-pombalina, em que o complexo do Rato articulava produção, formação técnica, abastecimento de materiais e comercialização. Ainda que a fábrica de tapetes não tenha deixado documentação tão abundante como a Real Fábrica de Louça ou a própria Real Fábrica das Sedas, a sua inclusão entre as fábricas anexas revela a tentativa de diversificar a produção nacional de bens têxteis e ornamentais.

Administração por João Gonçalves Em 28 de janeiro de 1778, foi celebrado novo contrato para que João Gonçalves passasse a administrar a fábrica por conta própria. O contrato concedia-lhe o privilégio de poder usar gratuitamente o edifício da Junta Administrativa das Fábricas, devendo, em contrapartida, pagar em cinco anuidades o valor da mobília e dos materiais que lhe eram trespassados, num total de 146 005 réis. O novo contrato representou uma mudança de regime administrativo. A fábrica deixava de estar diretamente explorada pela administração central das fábricas, passando a ser gerida por João Gonçalves, embora com uso de instalações públicas e mediante pagamento dos materiais e utensílios recebidos. O modelo aproxima-se de outras soluções adotadas nas fábricas anexas à Real Fábrica das Sedas, em que o Estado ou a administração régia procuravam reduzir encargos diretos, transferindo a gestão para mestres ou empresários, mas mantendo alguma forma de tutela, privilégio ou apoio. Segundo Viterbo, que recolheu a informação em Artes e Artistas em Portugal, a fábrica acabou por si própria, tendo dado perda. A notícia permite concluir que a administração por conta de João Gonçalves não assegurou a continuidade ou prosperidade prolongada da manufatura. A data concreta da extinção, porém, não é conhecida.

Declínio e extinção A fábrica foi declinando e extinguiu-se em data não especificada. A escassez de documentação conservada impede, por agora, uma reconstituição detalhada do volume de produção, da clientela, da duração exata da atividade ou da localização precisa das suas instalações. Apesar da brevidade das referências conhecidas, a existência da Fábrica de Tapetes de Lisboa é significativa para a compreensão do universo manufatureiro associado à Real Fábrica das Sedas. A sua trajetória mostra que o complexo do Rato não se limitou à produção de seda, mas procurou articular várias atividades de luxo e de decoração, incluindo tapeçaria e tapetes, num quadro de especialização técnica e de intervenção económica régia.

João Gonçalves João Gonçalves foi o mestre associado à Fábrica de Tapetes de Lisboa. A 1 de julho de 1771, celebrou contrato para a anexação da fábrica à Real Fábrica das Sedas e, em 28 de janeiro de 1778, passou a administrá-la por conta própria. O contrato de 1778 permitia-lhe usar gratuitamente o edifício da Junta Administrativa das Fábricas, ficando obrigado a pagar em cinco anuidades a mobília e os materiais recebidos, avaliados em 146 005 réis.

Produção A produção da Fábrica de Tapetes de Lisboa é conhecida apenas de forma genérica, como produção de tapetes. As fontes disponíveis não permitem identificar tipologias concretas, técnicas de execução, materiais utilizados, desenhos, padrões, clientela ou peças sobreviventes atribuíveis à fábrica. A associação da fábrica ao complexo da Real Fábrica das Sedas sugere, contudo, que a sua atividade se relacionava com a produção têxtil de qualidade e com artigos de aparato ou decoração interior. No contexto português setecentista, os tapetes constituíam bens de luxo e de representação, frequentemente associados ao consumo aristocrático, religioso ou cortesão. A criação ou incorporação de uma fábrica deste tipo no sistema das Sedas ajustava-se, por isso, ao objetivo de reduzir dependências externas e promover manufaturas nacionais capazes de responder a consumos de maior prestígio.

Localização e instalações A Fábrica de Tapetes de Lisboa estava vinculada ao complexo da Real Fábrica das Sedas, estabelecido no Rato, em Lisboa. A documentação conhecida não permite determinar com exatidão a localização física da oficina de tapetes dentro ou junto desse complexo, mas o contrato de 1778 indica que João Gonçalves beneficiava do uso gratuito do edifício da Junta Administrativa das Fábricas. O complexo manufatureiro do Rato incluía não apenas o edifício principal da Real Fábrica das Sedas, mas também oficinas anexas, habitações de artífices e estruturas relacionadas com a organização produtiva das fábricas régias. A partir do período pombalino, o conjunto foi articulado com o Bairro das Águas Livres e com as Amoreiras, formando uma zona urbana de forte vocação manufatureira.

Arquivo e fontes documentais A principal documentação relativa à Fábrica de Tapetes de Lisboa parece encontrar-se dispersa ou integrada na documentação da Real Fábrica das Sedas e das suas fábricas anexas. A informação atualmente conhecida deriva sobretudo da síntese de Francisco de Sousa Viterbo, em Artes e Artistas em Portugal, e da informação compilada pelo eViterbo a partir dessa tradição documental.

Notas

Referências

Bibliografia Duarte, Cecília; Gonçalves, Miguel; Góis, Cristina (2021). «Demonstração do estado da contadoria da Real Fábrica das Sedas, a maior empresa industrial de Portugal no Século XVIII (período 1757–1796)». De Computis - Revista Española de Historia de la Contabilidad. 18 (2): 31–56. doi:10.26784/issn.1886-1881.v18i2.435 Luz, Alex Faverzani da (2018). A Real Fábrica das Sedas de Lisboa: administração, política econômica e comércio no Atlântico Sul (1734–1777) (PDF) (Tese de Tese de doutoramento). Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Magalhães, Alberto da Conceição (2010). A Real Fábrica das Sedas e o comércio têxtil com o Brasil: 1734–1822 (Tese de Dissertação de mestrado). Universidade de Lisboa Neves, José Acúrsio (1827). Noções históricas, económicas e administrativas sobre a produção, e manufactura das sedas em Portugal, e particularmente sobre a Real Fabrica do suburbio do Rato, e suas anexas. Lisboa: Impressão Régia Viterbo, Francisco de Sousa (1883). Exposição d’Arte Ornamental. Notas ao Catálogo. Lisboa: Imprensa Nacional Viterbo, Francisco de Sousa (1892). Artes e artistas em Portugal. Lisboa: Livraria Ferreira

Ligações externas Fábrica de Tapetes de Lisboa, eViterbo João Gonçalves (3), eViterbo Portal de arquitetura e urbanismo Portal da história Portal de Portugal